O TEMPO É UM PROFESSOR LENTO, MAS MUITO EXIGENTE...

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Daltonismo


Já passei por diversas situações cômicas, inusitadas e constrangedoras relacionadas ao fato de ser daltônico. Chamar o Hulk de negão forte, pintar as folhas das árvores de vermelho e azul – segundo a professora –, e achar que a denominação ‘TV em cores’ fizesse referência à parte externa do aparelho e não às imagens, tornaram-se coisinhas normais comparando-se ao que aconteceu recentemente ao ter a oportunidade de conhecer a tia do meu amigo Júnior.
Estava à espera para ser atendido na gerência do Banco do Brasil quando notei a presença de um amigo, Júnior; logo ele aproximou-se e, virando-se para o lado:
– Tia, esse é aquele meu amigo que falei para a senhora que ele não identifica as cores.
Ela não deu muita atenção, somente disse um ‘tá bom’ com o ar de “e eu com isso?”.
Cumprimentei meu amigo e sua tia. Após alguns minutos, ela, do nada, olhou e disse:
– Juninho, é esse que só vê preto, branco e cinza, é?
– É, tia.
E a tia:
– Ai, meu Deus... O bichinho... E você veio sozinho pro banco, foi?
– Sim, sozinho. Não tenho problemas. Daltonismo não causa dificuldades a tal ponto. 
– Aproximou-se um pouco mais de mim e, vindo para a cadeira que estava vazia ao meu lado, perguntou gritando:
– VOCÊ SABE QUE COR É ESSA (apontando para a camisa do sobrinho que estava saindo)?
O grito dela chamou a atenção de todos, inclusive do gerente, que mais tarde viria a me perguntar também sobre o daltonismo. E eu:
– Tia, quanto à cor eu realmente não sei, porque eu não as vejo como a senhora as vê, agora os meus ouvidos estão legaizinhos...
E ela continuou:
– Meu filho, mas por que você não já foi se tratar? Compre um colírio, passe água virgem logo cedo nos olhos ainda em jejum. Vá fazer uma raspagem.
– No cabelo? Porque daltonismo não é catarata. Colírio também não tem nada a ver com isso...
E ela: 
– Ah, então tá certo...
Fez-se um silêncio no Banco...
Minutos depois, o número da minha ficha foi chamado. E ao levantar-me para ir em direção ao gerente, a tia gritou ao seu sobrinho (que estava usando o caixa eletrônico do outro lado):
– JUNINHO, MEU FILHO, VENHA AJUDAR AQUI SEU AMIGO PORQUE TEM UNS BATENTES ALI, QUE É PRA ELE NÃO CAIR!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Ex-Cravos

A nossa vida é uma vila cheia de anomalias. É onde nem só massa vira pizza, laranja não é apenas uma fruta (nem cor); o adjetivo ‘mensal’ ganha um aumentativo sintético transformando-se em um substantivo alusivo ao dinheiro; a profissão ”professor” é um contrapeso para o salário de um secretário (sei lá de quê); dinheiro vira a cabeça e desonestidade vira flor.
Nesta vida muitos são honestos; outros são desprovidos de coragem e deserdados pela sorte; a parte que resta é composta pelos estribados de ousadia e ricos em desonestidade. Estes últimos desequilibram a balança que nos diz o peso do caráter desses humanos.
Engana-se quem pensa que o lado obscuro não se eleva na balança. Eleva-se sim! Porque, apesar de tudo, a boa índole ainda predomina nos corações e o bem continua sendo maior. O mal é somente um câncer passeando pela feira das vaidades...
Nessa vila, que é um jardim perfumado, nem tudo é flor e nem todos são flores e cravos: Há alguns cravos que criam escravos (o criador cria e atura), no entanto, o buquê de poderosos (cheios de espinhos larápios) pode murchar tornando-se assim ex-cravos. Assim surgirá um novo jardim ex-escravo da corrupção.
Por trás de um bom ato (quase) sempre há um boato, mas o que se espera é que os olhos que enxergam os cravos espinhosos dessa vila de flores preocupem-se honestamente com o futuro das rosas e dos cravos (sem espinhos) desse jardim não somente visando o cargo de futuro jardineiro.
Sempre é preciso alimentar a fé, porque um fio de esperança de que nossa terra seja mesmo mais garrida e que os risonhos lindos campos tenham mais flores do bem, pode trazer aos nossos bosques muitas vidas que se aconcheguem no seio de uma terra cheia de amores.
Tomara que a flor (retrato da política nacional) seja uma vila de alerta, lição e exemplo: de alerta para os filhos deste solo para que fiquem atentos, busquem e reivindiquem seus direitos e não deixem que ninguém subestime sua existência; lição para os cravos (gatunos espinhosos) para que não tentem mais ludibriar os filhos da mãe gentil no berço esplêndido da vila da vida; exemplo para cada líder político...
Enfim, sonhar é o primeiro passo para a realização e, para realizar é necessário que tenhamos coragem para agir, para falar, para cobrar... porque não vivemos em terra de ninguém e, cada ser pensante – “penso, logo existo” – é proprietário desta pátria mãe, desta terra gentil que abriga esses filhos!



Vero Fernando



sábado, 17 de dezembro de 2011

Louro Sem a Língua Presa


Como se não bastassem as injustiças que escandalosamente tomam conta do nosso país, principalmente as sociais e políticas, ainda nos deparamos com notícias como esta: “Papagaio que chamou político de ladrão está detido no IBAMA”.
É isso mesmo. Não é piada. O animal está preso por ter falado o que nós pensamos. Onde está a liberdade de expressão deste país? É pelo fato de ele ser um animal irracional que tem de ser preso?  Aí é onde está o duplo erro: primeiro, por solicitarem a detenção da ave; segundo, por não haver motivo para tal ato. Esse papagaio raciocina muito melhor que muitas autoridades deste país.
Ah! Excelentíssimo Senhor Político agredido verbalmente pelo louro, acredito que vossa excelência não tenha mais motivo para se preocupar, pois o advogado do bichinho terá que ser muito bom e, Tendo em vista que o papagaio realmente chamou o político de ladrão, ele configura-se como culpado, e vocês sabem que, quanto mais culpado, melhor o advogado. O coitado do animal não tem dinheiro para isso.   
O louro, por sua língua afiada, está detido no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o IBAMA. O caso nos traz más recordações: lembranças da ditadura militar, suas torturas, repressões, silêncio e exílio! Será o início da ditadura IBAMAR?
Não sabemos mais aonde tudo isso vai parar. Não consigo imaginar uma ponte que nos faça atravessar a política e suas falcatruas para chegar numa terra de verdade na qual a justiça não seja injusta, fé seja professada e o impossível traga possibilidades.
Aqui (antes da ponte) percebemos o cortejo à insanidade a ponto de ver uma ave detida (será que terá julgamento?). Não quero mais elevar minha crença a ponto de desafiar o instinto dissonante dos animais racionais que tomam conta do nosso país, porque eles são capazes de pedir a detenção de um papagaio alegando que este seja uma ameaça às suas dignidades e honras.  

Vero Fernando

domingo, 11 de dezembro de 2011

O Medo

     
Muitos têm medo da traição, da violência, de expressarem-se e até mesmo das letras...
Do que você tem medo?
Esse medo te faz bem ou te faz mal?
Ele protege-me de mil venenos (até os dos bares) e de pessoas que se disfarçam com diversas fantasias: anjos, amigos, políticos, preocupados, conscientes, inovadores e humoristas...


E se o processador parar e o medo aumentar? Mude! E trace uma meta escolhendo bem a direção. Mas vá devagar, pise no freio. Porque o destino é muito mais importante que a velocidade...
Se o medo a ti chegar e, de fato te dominar, teu mundo vai parar. Então, lentamente, sem fazer barulho, recorte esse medo e cole-o no naqueles destemidos para o crime. Mas cole aqui, onde houver alguém que pretende te dar o direito de respirar um ar impuro.
O medo processou e o processador parou? Continue. Faça o medo processar e o tenebroso ser processado. 
Tenha apenas medo de ser enganado! Mas não demonstre. Tema em sigilo! Você pode usar a força que o silêncio tem como uma gritante arma.

Qual o teu maior medo? Medo do escuro? 
Será o escuro da alienação, o escuro da tecnologia, o escuro causado pela explosão solar ou o claro vácuo escuro de uma BR em plena meia-noite?
Será que o sol nasce mesmo do medo que as pessoas têm da escuridão? Será que o mal vem do medo? 

Eu tenho medo de todos os medos cultivados por todas as gerações.

Um medo quando é exposto, te engole, te reduz ao pó, te decompõe, te põe debaixo da terra ou a mil metros acima dela.
Mas como chegar tão alto se tens medo de altura?
Tenho um metro e oitenta e uma acrofobia essencial! 
E esse medo (sigiloso) de altura me fez enxergar, lá (ou aqui) do alto, as coisas certas e erradas daqui (ou de lá) da terra. Ele então é minha arma e não meu esconderijo. Mas às vezes me sinto num esconderijo desarmado... 

Outro medo me faz bem: o de cobras. Um medo que faz questão de arrastar-se atrás de mim (em pleno estado de conservação) há 20 e poucos anos e trouxe-me (e traz) melhores conceitos denotativos e conotativos da palavra cobra.
E, ainda assim, eu tenho medo de todos os medos cultivados por todas as gerações.

Tantas cobras, tanta escuridão, tanta tecnologia... 
Tantos cobras, ideias geniais, tanta meritocracia...
Serpentes da ciência e da tecnologia em busca de um apagão: injeção de elétrons, prótons e nêutrons - escuridão anunciada há mais de 2 mil anos.
O medo faz bem. O medo faz mal. O medo é um sentimento normal(?). 

Se ele existe, precisamos saber conduzi-lo e usá-lo ao nosso favor ou contra, a todo vapor.

Mas com tanto medo e insegurança, a essa altura da vida, daqui a pouco cairemos.

E parece que não adianta ter nada, não adianta ter alma. O mundo é de quem quer o que quiser ou de quem quer o que queremos que elas queiram.

Pelo medo ou pela falta dele, há mais de dez mil orações, e o sol agora expõe o sal. E  precisamos aprender a viver antes que vivamos sem temer ou temamos sem viver. E precisamos aprender a morrer antes que morramos sem saber. Assim como precisamos domar e adestrar nossos medos.

Eu continuo sentindo medo de todos os medos cultivados pelas gerações.

Está escuro aqui! Melhor esperar lá fora!


Vero Fernando
"Minha Vida é Tão Confusa Quanto a América Central. Por isso Não Me Acuse De Ser Irracional..."